Nova Iorque Fora de Horas
Chama-se Táxi e o cenário é a Big Apple. Trata-se de um relato sobre Nova Iorque e as mil estórias que lá acontecem.
José Couto Nogueira é um espectador na cidade de Nova Iorque, faz um percurso nômade e voyeurista pelas ruas da Big Apple e este livro traduz uma série de acontecimentos e situações que lá se passaram, algumas delas ao volante de um táxi. No entanto o ser motorista de táxi é mais uma fórmula para conquistar histórias, que se traduzem num livro cheio de referências, personagens, encontros e desencontros.
O estilo de escrita tem o rimo vibratório e alucinante da cidade...

MediaBooks - Como foi viver 10 anos em Nova Iorque?
José Couto Nogueira - (risos) Isso é uma pequena pergunta para uma grande resposta. É assim, cada cidade tem a sua personalidade e Nova Iorque é uma cidade fantástica. Na altura vivia em São Paulo e fui a Nova Iorque pela primeira vez fazer um trabalho como jornalista, e no primeiro dia que lá cheguei fiquei muito fascinado. Inicialmente fiquei com a sensação que já conhecia porque é uma cidade que vemos imensas vezes nos filmes, só que estar lá é outra sensação. O trabalho ia durar duas semanas, mas no primeiro dia que lá cheguei decidi que um dia tinha que morar em Nova Iorque. Demorei um ano a organizar a minha vida para poder ir morar para lá, mas consegui.
MediaBooks - Então o que o fez mudar foi o fascínio que sentiu pela Big Apple?
J.C.N - Sim, eu pensei que estava farto de viver nas periferias e estava na altura de viver no centro. Na altura eu estava numa situação em que isso era possível. Estava sozinho, não vivia com ninguém e tinha um trabalho independente. Havia circunstâncias que o permitiam.
MediaBooks - A capa de "Taxi" tem as Twin Towers. Como é que olha para a capa do livro hoje em dia.
J.C.N - Gosto bastante da capa. Foi concebida pelo Henrique Gaiato e está bastante apelativa. Em relação às torres, elas não aparecem no livro e os nova-iorquinos nem sequer gostavam das torres apesar de serem um símbolo. Tenho muita pena que tudo aquilo tenha acontecido e quando saiu a segunda edição do livro falou-se em mudar a capa e chegamos à conclusão que não íamos mudar porque o livro foi escrito numa época em que as torres existiam.
MediaBooks - Já voltou à cidade após o dia 11 de Setembro?
J.C.N - Não, ainda não, mas tenho a certeza que Nova Iorque vai recuperar muito bem. É uma cidade que tem permanentemente um milhão de pessoas de passagem. Só esse fator já ajuda a cicatrizar porque há um movimento constante. Além do mais os americanos não são como nós, se uma desgraça dessas acontecesse em Portugal, os portugueses iam estar arrasados durante 100 anos. Ainda se fala no terremoto de 1755...
MediaBooks - Viveu todas estas experiências na Nova Iorque dos anos 80. Porquê só agora o livro?
J.C.N - Bom, eu saí de Nova Iorque em 1990. Depois ainda fui para o Brasil durante dois anos. Entretanto vim para Portugal e estive ocupado com uma série de coisas. No entanto eu escrevi o livro inicialmente a pensar no Brasil e a primeira versão está escrita em português do Brasil. Quando vim para Portugal para o editar aqui tive que traduzir o livro novamente, e por isso é que demorou tanto tempo para ser editado.
MediaBooks - Quando decidiu tornar-se motorista de taxi em Nova Iorque, já tinha o livro em mente?
J.C.N - Sim. Isto porque um chofer de taxi entra em contacto com muita gente e foi uma ótima fórmula de recolher material para o livro. No entanto o livro não é sobre dirigir um taxi, isso é o que menos interessa. O taxi é uma desculpa para passar de uma história para a outra.
MediaBooks - E quanto tempo conduziu o taxi?
J.C.N - Durante três meses.
MediaBooks - As histórias que conta dos passageiros são verídicas?
J.C.N - É assim, há histórias que são verídicas, mas não se passaram no taxi, outras passaram-se no taxi, mas estão contadas de uma forma ligeiramente diferente. Ou seja, é tudo verdade mas é tudo ficção. É uma montagem de situações verdadeiras montadas de outra maneira.
MediaBooks - Os taxistas de Nova Iorque são personagens bastante sui generis.
J.C.N - Sem dúvida, na altura em que eu me quis tornar chofer de taxi, o nível era tão baixo e havia tantas reclamações que a Câmara Municipal de Nova Iorque decidiu fazer um curso para motoristas de taxi. Havia muitos haitianos na altura que só falavam francês e crioulo e nem sequer faziam idéia onde ficavam as ruas. As pessoas queixavam-se amargamente, e o curso era basicamente sobre boas maneiras.
MediaBooks - Alguma vez lhe pediram para ir ao Bronx?
J.C.N - Sim, sim, mas eu não fui.
MediaBooks - O filme "Taxi Driver" constituiu uma inspiração para o livro?
J.C.N - Não, eu gosto muito desse filme, mas não me influenciou.
MediaBooks - Para além de Henry Miller quais são as suas principais influências?
J.C.N - Gosto muito do Gore Vidal, mas em geral gosto de literatura americana que é muito rica e tem uma coisa que faz muita falta na língua portuguesa, que são os contos. Nos Estados Unidos existe um grande mercado para contos. O conto tem uma grande vitalidade e permite aos escritores fazer exercícios. Em Portugal não há revistas que publiquem contos e os editores dizem que não se vende. Eu já escrevi vários contos, mas escrever para estar na gaveta não interessa. Portanto eu escolho a literatura americana como um todo, como uma fonte de inspiração.
MediaBooks - O seu livro tem um ritmo quase alucinante da acção, mas a própria cidade transmite essa vibração.
J.C.N - Sim, eu pretendi transmitir ao leitor o ritmo da cidade.
MediaBooks - Considera que em Portugal faltam livros com dinâmica e ritmo?
J.C.N - Eu acho que em Portugal há uma grande preocupação com literatura, e com o ser literário, e há uma influência excessiva dos escritores do Séc. XIX. Faltam os livros contemporâneos, apesar de haver bons escritores contemporâneos. No entanto a nossa literatura tem tido um crescimento no bom sentido. Têm aparecido coisas com menos pretensões literárias. As pessoas têm que se preocupar em contar boas histórias.
MediaBooks - Como foi a sua experiência como fotógrafo em Londres?
J.C.N - Foi muito boa. Mas eu aprendi fotografia em Londres e fui fotógrafo em Lisboa. Gosto muito de fotografia. Tal como escrever, fotografar é uma forma de comunicar.
MediaBooks - Já teve 1001 profissões. Qual delas o fascinou mais?
J.C.N - Eu considero-me um jornalista, e acho que todas as profissões que tive, de uma forma ou de outra cabem dentro da profissão de jornalista.
MediaBooks - Já foi editor e jornalista em várias publicações. Como vê o jornalismo em Portugal nos dias de hoje?
J.C.N - Muito mal. Em Portugal há dois problemas muito grandes em relação ao jornalismo. Um deles, é o problema de não haver dinheiro. É sempre o jornalismo pobre. O jornalista de uma publicação americana faz seis artigos por ano, tem dois meses para fazer um artigo, e tem meios para fazê-lo. Em Portugal não há meios para fazer jornalismo de investigação. Essa pobreza leva a que seja um jornalismo muito superficial. O outro problema é cultural. Não se cultiva o querer saber. E depois a televisão veio mudar muito a maneira de se fazer jornalismo, e mudar para pior. Na televisão não se faz jornalismo, faz-se mais espetáculo.
MediaBooks - Já acabou o seu livro sobre o 25 de Abril?
J.C.N - Não. É um livro baseado na época do 25 de Abril, mas ainda estou a escrevê-lo.
MediaBooks - Gosta de olhar para o mundo e refletir sobre ele. Há outras experiências semelhantes a "Taxi" que gostaria de ter feito?
J.C.N - Sim, gostaria de ter guiado um caminhão de longo curso de costa a costa, nos Estados Unidos. Tenho muita pena de não ter feito, mas era impossível. Se fosse mais novo gostaria de ter feito desportos radicais.
MediaBooks - O que está a fazer atualmente?
J.C.N - Estou a trabalhar como jornalista free lancer, a traduzir um livro inglês e a escrever o meu livro.
Texto de: Elsa Garcia
Fotos de: Leonel de Jesus
Leia uma parte do 6º capítulo de Taxi, romance de José Couto Nogueira.
..."Com o tempo, começo a conhecer melhor a cidade. Não é fácil, sendo a área grande, e a variedade ainda maior. Há partes de Nova Iorque que parecem Paris, outras São Paulo, outras ainda cidades de província. Colinas arborizadas com vista para o mar, praças verdes e monumentais, ruazinhas convulsas com roupa pendurada nas janelas, bairros cheios de comércio, becos sem luz, quarteirões de escritórios a perder de vista na vertical. Mais de dez mil restaurantes, lojas de tudo que é possível imaginar, e mesmo coisas que a imaginação não alcança.
Manhattan, só por si, é um mistério; nunca percebi como é que numa ilha com 7,5 quilômetros de comprimento e 1,5 quilômetros de largura máxima pode caber tanta coisa. É uma faixa plana, com colinas apenas perceptíveis, cortada à faca por ruas e avenidas que se cruzam perpendicularmente, formando uma rede quase uniforme. Só a ponta inferior, mais antiga, é que tem ruas irregulares como nas cidades européias. Vista no mapa, parece sem nenhuma imaginação, um grande parque ali no meio, os quarteirões alinhados com regularidade. De fora, quando nos aproximamos dos arredores, o recorte dos arranha-céus dá uma imponência majestosa, grandeza e poder, frieza e anonimato. Dentro, nas malhas da cidade, a variedade de ambientes, climas, sons e cores é interminável, deixa os sentidos tontos e a cabeça sobrecarregada de informação. Talvez seja a concentração de energia num espaço tão pequeno - uma energia quase palpável, vulcânica, que por vezes destrói, mas sempre eletrizante.
Mesmo ao fim de anos a circular pelas ruas, mesmo nas horas perdidas da madrugada, sente-se essa agitação que nunca perde a novidade, o arrepio de que algo especial está sempre prestes a acontecer. Quem chega pela primeira vez ou está apenas de passagem sente essa energia como positiva. Tudo parece maravilhoso, as oportunidades, as possibilidades, a qualidade. Depois, no tempo de quem fica, o lado negativo vai aparecendo, como um pesadelo: miséria, solidão, competição brutal, ganância, agressividade. As pessoas reagem de maneiras diferentes; há quem trabalhe violentamente de sol a sol, doze, quinze horas por dia, há quem fique meses fechado em casa, nunca vá além do quarteirão mais próximo"
Táxi
José Couto Nogueira
Publicações Dom Quixote
Abril de 2001
(José Couto Nogueira é diretor da Alface Voadora.)